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    DissertaçãoAcesso aberto (Open Access)
    “Este aqui é o mingau das almas”: um estudo sobre o ritual de iluminação aos mortos e o consumo do mingau de manicuera em Vigia de Nazaré – PA
    (Universidade Federal do Pará, 2026-02-23) COSTA, Marcelo Alves; GARCÉS, Claudia Leonor López; http://lattes.cnpq.br/5655397771707702; https://orcid.org/0000-0001-9550-0152; MORAES JÚNIOR, Manoel Ribeiro de; MACÊDO, Sidiana da Consolação Ferreira de; PICANÇO, Miguel de Nazaré Brito; GONÇALVES, Telma Amaral; http://lattes.cnpq.br/2429279552706202; http://lattes.cnpq.br/4202561791565993; http://lattes.cnpq.br/4489977476724659; http://lattes.cnpq.br/7335593537033167; https://orcid.org/0000-0001-6986-7671; https://orcid.org/; https://orcid.org/; https://orcid.org/
    Esta dissertação analisa o ritual da iluminação aos mortos no município de Vigia de Nazaré, nordeste do estado do Pará, enfatizando o consumo do mingau de manicuera no contexto do Dia de Finados. A pesquisa toma como ponto de partida a compreensão da morte como fenômeno social e ritual, abordando as práticas desenvolvidas nos cemitérios públicos da cidade como formas organizadas de relação entre vivos e mortos, marcadas por cuidados materiais, circulação de afetos, produção de memória e sociabilidade. O objetivo central do trabalho consiste em analisar a correlação entre o consumo do mingau de manicuera e o ritual da iluminação, compreendendo essa prática alimentar como elemento constitutivo do evento ritual e como resultado de processos históricos de ressignificação cultural. A investigação considera a tradição indígena tupinambá como matriz histórica de referência para o uso ritual das variedades de mandioca e de suas beberagens, sem tomar essa herança como continuidade direta ou sobrevivência cultural. O foco analítico dedica-se a compreender os modos pelos quais essas referências são reelaboradas no contexto caboclo amazônico, articulando práticas agrícolas, saberes culinários e usos rituais contemporâneos. Nesse sentido, a presença da manicuera nos roçados, no preparo doméstico e no consumo concentrado no Dia de Finados é analisada como parte de um sistema simbólico que associa o alimento articulado com a memória e relacionado ainda que acidentalmente com a morte, produzindo sentidos específicos no interior da “iluminação”. A pesquisa busca constituir uma narrativa etnográfica, desenvolvida por meio de observação direta por meio de uma "observação flutuante" durante o período que antecede e culmina no Dia de Finados, especialmente nos dois cemitérios públicos da área urbana de Vigia de Nazaré. O trabalho de campo incluiu entrevistas semiestruturadas e narrativas com moradores locais, fazedoras do mingau, consumidores, trabalhadores dos cemitérios e outros sujeitos envolvidos nas dinâmicas do ritual. Foram realizadas, ainda, observações do preparo da manicuera em contexto doméstico e visitas a roçados de mandiocaba, permitindo situar a prática para além do espaço cemiterial e compreender sua inserção no cotidiano produtivo e simbólico local. O material empírico constituído entre os anos de 2024 e 2025, é articulado a levantamento bibliográfico e documental sobre o ritual da iluminação, práticas funerárias, alimentação e religiosidade popular na região nordeste do Pará. No plano analítico, a dissertação dialoga com contribuições da antropologia da morte, dos ritos de passagem e das interpretações sobre a sociedade relacional brasileira, articulando essas perspectivas a reflexões sobre comensalidade, memória, afetos e consumo. Argumenta-se que o mingau de manicuera atua, no contexto da iluminação aos mortos, como mediador ritual e relacional, organizando formas de sociabilidade, reforçando vínculos familiares e comunitários e reinscrevendo os mortos no espaço social. Conclui-se que a iluminação aos mortos, em Vigia de Nazaré, constitui um ritual complexo e processual, no qual práticas alimentares, cuidados materiais e memória operam conjuntamente na produção de sentidos sobre a morte e sobre a continuidade das relações sociais.
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