Escrita acadêmica de surdos: a constituição de dois discrusos sobre surdez

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29-08-2022

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WARIS, Franciany Chaves. Escrita acadêmica de surdos: a constituição dos discursos sobre surdez . Orientadora: Isabel Cristina França dos Santos Rodrigues. 2022. 144 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Instituto de Letras e Comunicação, Universidade Federal do Pará, Belém, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufpa.br/handle/2011/18820. Acesso em: .

DOI

Neste estudo, analisa-se como a constituição polêmica do discurso do pesquisador surdo afeta a sua produção de conhecimento sobre a surdez, partindo da hipótese de que o discurso acadêmico-culturalista (D2) apresenta em sua construção elementos de negação (semas negativos) aos enunciados pertencentes ao que denominamos discurso oralista-normalizador (D1). O objetivo foi compreender como essa polêmica “molda” as posições do pesquisador no espaço discursivo em que se desenvolve a pesquisa. Especificamente, buscou-se: (I) identificar os principais semas que fundamentam o discurso da Cultura Surda e sua contrapartida no discurso oralista-normalizador; (II) descrever o papel dos processos de interincompreensão e “tradução” (simulacros), produzidos pela relação polêmica entre o discurso D2 e o discurso D1, nas produções acadêmicas de pesquisadores surdos; (III) discutir a influência da polêmica nas tomadas de posição dos pesquisadores em relação ao campo teórico, aos dados e ao objeto da pesquisa. O corpus de pesquisa constitui-se de sete dissertações de mestrado e três teses de doutorado da Universidade Federal de Santa Catarina, das quais selecionamos dois recortes para análise: a) as narrativas de vida dos autores constantes nos trabalhos; b) as seções em que os autores apresentam o quadro teórico e a análise de dados. Assim, tem-se dois recortes para a análise, que foi dividida também em duas etapas: na primeira, realizada sobre as narrativas de vida dos autores surdos, utilizamos como base teórica a noção de polêmica como interincompreensão, postulada por Maingueneau (2008), segundo o qual repartição dos semas gera dois registros discursivos, o mesmo e seu “outro”, sendo aquele constituído pela negação de simulacros que constrói do “outro” no interior do espaço discursivo. Na segunda, realizada nas seções teórico e de análise dos dados, utilizamos como base teórica os planos semânticos vocabulário (termos-chave do discurso) e intertextualidade (relação que o autor estabelece entre os textos para construir restrições semânticas de dado discurso) que integram a perspectiva de Semântica Global aferida por Maingueneau (2008). Os resultados das análises indicaram que a polêmica é constituída na escrita acadêmica do surdo tanto pela negação do simulacro de D1, cujo papel traduzido por D2 é o de fortalecer a perspectiva de surdez como deficiência; quanto pela (re)afirmação do objeto de pesquisa como necessária para a comunidade surda e para a sustentação do discurso D2. Conclui-se que o modo como os discursos D2 e D1 são constituídos colocam em lados opostos surdos e ouvintes, levando a inferir que a convivência harmônica entre os dois grupos seria impossível.

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